Um apelo à memória coletiva sobre as contribuições de figuras que muitas vezes ficam à sombra em períodos de guerra.
Muitas histórias da guerra colonial já foram contadas. Mas outras não. Esta que irei contar, não gostaria que ficasse no esquecimento porque é importante que o valor e a coragem de alguém seja realçado ainda que a pessoa em questão tenha sido considerada, durante a sua vida sócio-profissional, como insigne.
Estávamos em Nambuangongo, Junho 1963, tinha acabado de sair e regressar ao Quixico um pelotão de uma nossa companhia ali sediada que tinha vindo para transportar reabastecimentos e, como sempre, um dos nossos pelotões, saiu antes para se colocar a meio do caminho, numa zona considerada perigosa, numa elevação sobranceira à picada, em proteção da coluna que viria atrás.
O meu pelotão estava de reserva e pronto a acorrer. É recebida a informação de que a coluna do Quixico é atacada precisamente a partir do morro contrário onde se encontrava o nosso pelotão em proteção e que havia três feridos e que o fogo não cessava dificultando o transporte para Nambuangongo dos mesmos feridos.
Ao aprontar-me para sair com os meus homens, veio ter comigo o alferes médico João Patrício, dizendo que me acompanharia para socorrer os feridos no local. Fiquei espantado, pois os médicos, por normativo, não saiam do aquartelamento, o que nós considerávamos uma norma correta. Uma pessoa e a única com função de salvar vidas, não se pode colocar em situação de perigo. O alferes médico João Patrício, não era médico do nosso batalhão. Estava ali a prestar serviço de itinerância de dentista. E esta é uma outra parte interessante da história. Um dos flagelos da saúde dos militares, eram os problemas nos dentes que obrigava a deslocação dos doentes a tratamento a Luanda. Isto dava a origem que as unidades ficassem desfalcadas, durante semanas, com os imensos militares evacuados. Para diminuir este problema o Quartel General em Luanda, solicitou a todos os médicos que tivessem prática de dentista para se oferecerem para prestar o tal serviço itinerante. O Dr. João Patrício, foi um dos que se ofereceu. Lembrou-se que o seu pai, também médico, tinha prestado esse serviço na sua terra natal com uma roda mecânica movida pelo pé que acionava a broca de dentista ( tipo máquina de costura Singer) e pediu que lhe enviassem para Angola mais os outros apetrechos necessários para a intervenção odontológica. E foi a realizar este tipo de assistência médica em Nambuangongo que o Dr. João Patrício ouviu que a coluna tinha sido atacada, que havia feridos e que necessitavam de apoio. Dada autorização pelo comandante, o Dr. João Patrício acompanhou-me até ao local onde se encontrava a coluna com os feridos. Chegados perto do local reiniciou-se o fogo inimigo. Como vinha do morro contrário onde estava o nosso pelotão em proteção, o pessoal que estava na picada protegia-se atrás das viaturas do fogo inimigo. Com metade do meu grupo contornei o morro do inimigo por trás e a outra metade conduziu o médico junto dos feridos para assistência e posteriormente reconduzi-los para Nambuangongo. Um deles morreu no local. Foi o primeiro morto da nossa companhia no Quixico a Com. Cav. 395.
Durante todo o período que estive em zona de guerra nunca vi algum médico sair para socorrer feridos na picada. E, repito era uma norma com racionalidade. Este episódio, para mim foi único. E não ficaria satisfeito se não o contasse porque o referido médico demonstrou disponibilidade e valentia numa urgência em local perigoso.
Esse alferes médico é o Professor Doutor João Alberto Batista Patricio com carreira hospitalar e académica na nossa Faculdade de Medicina em Coimbra e CHUC. Com um extraordinário currículo no domínio da cirurgia e microcirurgia, mas o que quero aqui realçar é o seu respeito pela vida humana e a sua dedicação aos que sofrem.
Não queria que esta história ficasse no esquecimento.
A minha homenagem.
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