A importância da utilização desta arma de apoio numa situação em que quatro grupos de combate ficaram inativos.
No decorrer do mês de Junho de 1963, o Batalhão de cavalaria 437 que se destinava a Zala, passou cerca de um mês em Nambuangongo fazendo operações conjuntas com o nosso batalhão. Naquela noite saíram dois grupos de combate de cada batalhão. Os grupos do nosso batalhão eram comandados pelo nosso capitão Luís de Sousa Moreira e os do 437 pelo capitão Luís Casquilho. Ficaram em Nambuangongo o meu grupo de reserva e o outro quarto grupo na proteção ao aquartelamento.
Ficar de reserva era bom porque não saíamos, mas na maior parte das vezes tínhamos de sair rápido em socorro dos que estavam fora e em situação difícil.
Foi o que aconteceu naquela manhã. Os grupos saídos estavam cercados e sem munições.
Saímos em viatura em direção a Zala passando pelo rio Wêmbia e a seguir ao rio Quima e um pouco antes da camioneta vermelha, devia saltar das viaturas e cortar à esquerda até às coordenadas que me tinham dado. Ao chegar perto do local indicado começamos a receber pequenas rajadas e tiros a que nós chamávamos de “pistola seca”. Estabelecido o contacto com o nosso capitão encontrámos um grupo numeroso de militares todos deitados e muito quietos tendo este me dado a informação que sempre que se levantavam eram atacados. Pediu-me então para fazer tiro de morteiro, por cima deles, em direção a um ponto que me referenciou para liquidar aquela fonte de tiro. Já não possuíam granadas de morteiro.
E que arma era esse morteiro?
Era uma arma que consistia num tubo de carregar pela boca e destinada a lançar granadas em tiro curvo. Além do tubo possuía um prato base e um bipé que devido ao seu peso dificultar a progressão pela mata, o apontador só transportava o tubo em conjunto com 3 a 4 granadas que se distribuíam pelo grupo.
Fazia um tipo de tiro vertical e curvo, o carregamento era manual pela boca do tubo e o efeito resultava numa projeção de estilhaços. Cada grupo de combate possuía nos seus homens um apontador de morteiro. Era uma arma que me dava alguma confiança e segurança. Melhor dizendo, tinha um bom apontador de morteiro. Acertava sempre no alvo.
Mesmo assim, coloquei dúvidas ao meu capitão. Os quatro grupos estendiam-se por uma área com cerca de 50 metros de diâmetro. O tiro tinha de ser feito para um local distante cerca de 300m. O receio era de a granada possuir algum defeito (nunca me aconteceu) e rebentar antes do alvo inimigo.
Colocado o problema ao apontador, este informou que tudo ia correr bem. Apoiou a base bem firme no solo. A olho inclinou o tubo para o ângulo correto para os 300 metros. Com uma mão segurou o tubo e com a outra introduziu a granada. Foram lançadas várias granadas (desta vez, e porque recebi a informação de que o morteiro seria uma solução, levámos mais granadas que o normal). A metralhadora calou-se, mas a pistola ouvia-se de vez em quando. Entretanto recebi ordem do meu capitão para avançar para proteger a retirada daquele imenso número de militares. Ainda continuámos a ouvir a pistola, mas, nesta altura, já de maior distância.
A minha leitura desta situação. Acontecia muitas vezes que um só atirador inimigo (desta vez deveriam ser dois ou três) bem colocados, poderiam tornar inativos um grande número dos nossos militares e, estes com poucas possibilidades de reagir.
Um outro aspeto a recordar é o de ter no grupo um bom apontador de morteiro. Muitas das vezes foi o melhor recurso.
Ainda hoje, nos nossos convívios, e quando me encontro com este militar, trocámos um olhar, ficámos calados e recordámos esta situação sem a ela referir.
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