terça-feira, 16 de junho de 2026

O morteiro de 60mm


 

A importância da utilização desta arma de apoio numa situação em que quatro grupos de combate ficaram inativos.

 

No decorrer do mês de Junho de 1963, o Batalhão de cavalaria 437 que se destinava a Zala, passou cerca de um mês em Nambuangongo fazendo operações conjuntas com o nosso batalhão. Naquela noite saíram dois grupos de combate de cada batalhão. Os grupos do nosso batalhão eram comandados pelo nosso capitão Luís de Sousa Moreira e os do 437 pelo capitão Luís Casquilho. Ficaram em Nambuangongo o meu grupo de reserva e o outro quarto grupo na proteção ao aquartelamento. 

Ficar de reserva era bom porque não saíamos, mas na maior parte das vezes tínhamos de sair rápido em socorro dos que estavam fora e em situação difícil.

Foi o que aconteceu naquela manhã. Os grupos saídos estavam cercados e sem munições. 

Saímos em viatura em direção a Zala passando pelo rio Wêmbia e a seguir ao rio Quima e um pouco antes da camioneta vermelha, devia saltar das viaturas e cortar à esquerda até às coordenadas que me tinham dado. Ao chegar perto do local indicado começamos a receber pequenas rajadas e tiros a que nós chamávamos de “pistola seca”. Estabelecido o contacto com o nosso capitão encontrámos um grupo numeroso de militares todos deitados e muito quietos tendo este me dado a informação que sempre que se levantavam eram atacados. Pediu-me então para fazer tiro de morteiro, por cima deles, em direção a um ponto que me referenciou para liquidar aquela fonte de tiro. Já não possuíam granadas de morteiro. 

E que arma era esse morteiro? 

Era uma arma que consistia num tubo de carregar pela boca e destinada a lançar granadas em tiro curvo. Além do tubo possuía um prato base e um bipé que devido ao seu peso dificultar a progressão pela mata, o apontador só transportava o tubo em conjunto com 3 a 4 granadas que se distribuíam pelo grupo.

Fazia um tipo de tiro vertical e curvo, o carregamento era manual pela boca do tubo e o efeito resultava numa projeção de estilhaços. Cada grupo de combate possuía nos seus homens um apontador de morteiro. Era uma arma que me dava alguma confiança e segurança. Melhor dizendo, tinha um bom apontador de morteiro. Acertava sempre no alvo.

Mesmo assim, coloquei dúvidas ao meu capitão. Os quatro grupos estendiam-se por uma área com cerca de 50 metros de diâmetro. O tiro tinha de ser feito para um local distante cerca de 300m. O receio era de a granada possuir algum defeito (nunca me aconteceu) e rebentar antes do alvo inimigo. 

Colocado o problema ao apontador, este informou que tudo ia correr bem. Apoiou a base bem firme no solo. A olho inclinou o tubo para o ângulo correto para os 300 metros. Com uma mão segurou o tubo e com a outra introduziu a granada. Foram lançadas várias granadas (desta vez, e porque recebi a informação de que o morteiro seria uma solução, levámos mais granadas que o normal). A metralhadora calou-se, mas a pistola ouvia-se de vez em quando. Entretanto recebi ordem do meu capitão para avançar para proteger a retirada daquele imenso número de militares. Ainda continuámos a ouvir a pistola, mas, nesta altura, já de maior distância. 

A minha leitura desta situação. Acontecia muitas vezes que um só atirador inimigo (desta vez deveriam ser dois ou três) bem colocados, poderiam tornar inativos um grande número dos nossos militares e, estes com poucas possibilidades de reagir.

Um outro aspeto a recordar é o de ter no grupo um bom apontador de morteiro. Muitas das vezes foi o melhor recurso. 

Ainda hoje, nos nossos convívios, e quando me encontro com este militar, trocámos um olhar, ficámos calados e recordámos esta situação sem a ela referir.

 

 

 

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Para não esquecer

Um apelo à memória coletiva sobre as contribuições de figuras que muitas vezes ficam à sombra em períodos de guerra.

Muitas histórias da guerra colonial já foram contadas. Mas outras não. Esta que irei contar, não gostaria que ficasse no esquecimento porque é importante que o valor e a coragem de alguém seja realçado ainda que a pessoa em questão tenha sido considerada, durante a sua vida sócio-profissional, como insigne.
Estávamos em Nambuangongo, Junho 1963, tinha acabado de sair e regressar ao Quixico um pelotão de uma nossa companhia ali sediada que tinha vindo para transportar reabastecimentos e, como sempre, um dos nossos pelotões, saiu antes para se colocar a meio do caminho, numa zona considerada perigosa, numa elevação sobranceira à picada, em proteção da coluna que viria atrás.
O meu pelotão estava de reserva e pronto a acorrer. É recebida a informação de que a coluna do Quixico é atacada precisamente a partir do morro contrário onde se encontrava o nosso pelotão em proteção e que havia três feridos e que o fogo não cessava dificultando o transporte para Nambuangongo dos mesmos feridos.
Ao aprontar-me para sair com os meus homens, veio ter comigo o alferes médico João Patrício, dizendo que me acompanharia para socorrer os feridos no local. Fiquei espantado, pois os médicos, por normativo, não saiam do aquartelamento, o que nós considerávamos uma norma correta. Uma pessoa e a única com função de salvar vidas, não se pode colocar em situação de perigo. O alferes médico João Patrício, não era médico do nosso batalhão. Estava ali a prestar serviço de itinerância de dentista. E esta é uma outra parte interessante da história. Um dos flagelos da saúde dos militares, eram os problemas nos dentes que obrigava a deslocação dos doentes a tratamento a Luanda. Isto dava a origem que as unidades ficassem desfalcadas, durante semanas, com os imensos militares evacuados. Para diminuir este problema o Quartel General em Luanda, solicitou a todos os médicos que tivessem prática de dentista para se oferecerem para prestar o tal serviço itinerante. O Dr. João Patrício, foi um dos que se ofereceu. Lembrou-se que o seu pai, também médico, tinha prestado esse serviço na sua terra natal com uma roda mecânica movida pelo pé que acionava a broca de dentista ( tipo máquina de costura Singer) e pediu que lhe enviassem para Angola mais os outros apetrechos necessários para a intervenção odontológica. E foi a realizar este tipo de assistência médica em Nambuangongo que o Dr. João Patrício ouviu que a coluna tinha sido atacada, que havia feridos e que necessitavam de apoio. Dada autorização pelo comandante, o Dr. João Patrício acompanhou-me até ao local onde se encontrava a coluna com os feridos. Chegados perto do local reiniciou-se o fogo inimigo. Como vinha do morro contrário onde estava o nosso pelotão em proteção, o pessoal que estava na picada protegia-se atrás das viaturas do fogo inimigo. Com metade do meu grupo contornei o morro do inimigo por trás e a outra metade conduziu o médico junto dos feridos para assistência e posteriormente reconduzi-los para Nambuangongo. Um deles morreu no local. Foi o primeiro morto da nossa companhia no Quixico a Com. Cav. 395.
Durante todo o período que estive em zona de guerra nunca vi algum médico sair para socorrer feridos na picada. E, repito era uma norma com racionalidade. Este episódio, para mim foi único. E não ficaria satisfeito se não o contasse porque o referido médico demonstrou disponibilidade e valentia numa urgência em local perigoso.
Esse alferes médico é o Professor Doutor João Alberto Batista Patricio com carreira hospitalar e académica na nossa Faculdade de Medicina em Coimbra e CHUC. Com um extraordinário currículo no domínio da cirurgia e microcirurgia, mas o que quero aqui realçar é o seu respeito pela vida humana e a sua dedicação aos que sofrem.
Não queria que esta história ficasse no esquecimento.
A minha homenagem.