terça-feira, 16 de junho de 2026

O morteiro de 60mm


 

A importância da utilização desta arma de apoio numa situação em que quatro grupos de combate ficaram inativos.

 

No decorrer do mês de Junho de 1963, o Batalhão de cavalaria 437 que se destinava a Zala, passou cerca de um mês em Nambuangongo fazendo operações conjuntas com o nosso batalhão. Naquela noite saíram dois grupos de combate de cada batalhão. Os grupos do nosso batalhão eram comandados pelo nosso capitão Luís de Sousa Moreira e os do 437 pelo capitão Luís Casquilho. Ficaram em Nambuangongo o meu grupo de reserva e o outro quarto grupo na proteção ao aquartelamento. 

Ficar de reserva era bom porque não saíamos, mas na maior parte das vezes tínhamos de sair rápido em socorro dos que estavam fora e em situação difícil.

Foi o que aconteceu naquela manhã. Os grupos saídos estavam cercados e sem munições. 

Saímos em viatura em direção a Zala passando pelo rio Wêmbia e a seguir ao rio Quima e um pouco antes da camioneta vermelha, devia saltar das viaturas e cortar à esquerda até às coordenadas que me tinham dado. Ao chegar perto do local indicado começamos a receber pequenas rajadas e tiros a que nós chamávamos de “pistola seca”. Estabelecido o contacto com o nosso capitão encontrámos um grupo numeroso de militares todos deitados e muito quietos tendo este me dado a informação que sempre que se levantavam eram atacados. Pediu-me então para fazer tiro de morteiro, por cima deles, em direção a um ponto que me referenciou para liquidar aquela fonte de tiro. Já não possuíam granadas de morteiro. 

E que arma era esse morteiro? 

Era uma arma que consistia num tubo de carregar pela boca e destinada a lançar granadas em tiro curvo. Além do tubo possuía um prato base e um bipé que devido ao seu peso dificultar a progressão pela mata, o apontador só transportava o tubo em conjunto com 3 a 4 granadas que se distribuíam pelo grupo.

Fazia um tipo de tiro vertical e curvo, o carregamento era manual pela boca do tubo e o efeito resultava numa projeção de estilhaços. Cada grupo de combate possuía nos seus homens um apontador de morteiro. Era uma arma que me dava alguma confiança e segurança. Melhor dizendo, tinha um bom apontador de morteiro. Acertava sempre no alvo.

Mesmo assim, coloquei dúvidas ao meu capitão. Os quatro grupos estendiam-se por uma área com cerca de 50 metros de diâmetro. O tiro tinha de ser feito para um local distante cerca de 300m. O receio era de a granada possuir algum defeito (nunca me aconteceu) e rebentar antes do alvo inimigo. 

Colocado o problema ao apontador, este informou que tudo ia correr bem. Apoiou a base bem firme no solo. A olho inclinou o tubo para o ângulo correto para os 300 metros. Com uma mão segurou o tubo e com a outra introduziu a granada. Foram lançadas várias granadas (desta vez, e porque recebi a informação de que o morteiro seria uma solução, levámos mais granadas que o normal). A metralhadora calou-se, mas a pistola ouvia-se de vez em quando. Entretanto recebi ordem do meu capitão para avançar para proteger a retirada daquele imenso número de militares. Ainda continuámos a ouvir a pistola, mas, nesta altura, já de maior distância. 

A minha leitura desta situação. Acontecia muitas vezes que um só atirador inimigo (desta vez deveriam ser dois ou três) bem colocados, poderiam tornar inativos um grande número dos nossos militares e, estes com poucas possibilidades de reagir.

Um outro aspeto a recordar é o de ter no grupo um bom apontador de morteiro. Muitas das vezes foi o melhor recurso. 

Ainda hoje, nos nossos convívios, e quando me encontro com este militar, trocámos um olhar, ficámos calados e recordámos esta situação sem a ela referir.

 

 

 

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Para não esquecer

Um apelo à memória coletiva sobre as contribuições de figuras que muitas vezes ficam à sombra em períodos de guerra.

Muitas histórias da guerra colonial já foram contadas. Mas outras não. Esta que irei contar, não gostaria que ficasse no esquecimento porque é importante que o valor e a coragem de alguém seja realçado ainda que a pessoa em questão tenha sido considerada, durante a sua vida sócio-profissional, como insigne.
Estávamos em Nambuangongo, Junho 1963, tinha acabado de sair e regressar ao Quixico um pelotão de uma nossa companhia ali sediada que tinha vindo para transportar reabastecimentos e, como sempre, um dos nossos pelotões, saiu antes para se colocar a meio do caminho, numa zona considerada perigosa, numa elevação sobranceira à picada, em proteção da coluna que viria atrás.
O meu pelotão estava de reserva e pronto a acorrer. É recebida a informação de que a coluna do Quixico é atacada precisamente a partir do morro contrário onde se encontrava o nosso pelotão em proteção e que havia três feridos e que o fogo não cessava dificultando o transporte para Nambuangongo dos mesmos feridos.
Ao aprontar-me para sair com os meus homens, veio ter comigo o alferes médico João Patrício, dizendo que me acompanharia para socorrer os feridos no local. Fiquei espantado, pois os médicos, por normativo, não saiam do aquartelamento, o que nós considerávamos uma norma correta. Uma pessoa e a única com função de salvar vidas, não se pode colocar em situação de perigo. O alferes médico João Patrício, não era médico do nosso batalhão. Estava ali a prestar serviço de itinerância de dentista. E esta é uma outra parte interessante da história. Um dos flagelos da saúde dos militares, eram os problemas nos dentes que obrigava a deslocação dos doentes a tratamento a Luanda. Isto dava a origem que as unidades ficassem desfalcadas, durante semanas, com os imensos militares evacuados. Para diminuir este problema o Quartel General em Luanda, solicitou a todos os médicos que tivessem prática de dentista para se oferecerem para prestar o tal serviço itinerante. O Dr. João Patrício, foi um dos que se ofereceu. Lembrou-se que o seu pai, também médico, tinha prestado esse serviço na sua terra natal com uma roda mecânica movida pelo pé que acionava a broca de dentista ( tipo máquina de costura Singer) e pediu que lhe enviassem para Angola mais os outros apetrechos necessários para a intervenção odontológica. E foi a realizar este tipo de assistência médica em Nambuangongo que o Dr. João Patrício ouviu que a coluna tinha sido atacada, que havia feridos e que necessitavam de apoio. Dada autorização pelo comandante, o Dr. João Patrício acompanhou-me até ao local onde se encontrava a coluna com os feridos. Chegados perto do local reiniciou-se o fogo inimigo. Como vinha do morro contrário onde estava o nosso pelotão em proteção, o pessoal que estava na picada protegia-se atrás das viaturas do fogo inimigo. Com metade do meu grupo contornei o morro do inimigo por trás e a outra metade conduziu o médico junto dos feridos para assistência e posteriormente reconduzi-los para Nambuangongo. Um deles morreu no local. Foi o primeiro morto da nossa companhia no Quixico a Com. Cav. 395.
Durante todo o período que estive em zona de guerra nunca vi algum médico sair para socorrer feridos na picada. E, repito era uma norma com racionalidade. Este episódio, para mim foi único. E não ficaria satisfeito se não o contasse porque o referido médico demonstrou disponibilidade e valentia numa urgência em local perigoso.
Esse alferes médico é o Professor Doutor João Alberto Batista Patricio com carreira hospitalar e académica na nossa Faculdade de Medicina em Coimbra e CHUC. Com um extraordinário currículo no domínio da cirurgia e microcirurgia, mas o que quero aqui realçar é o seu respeito pela vida humana e a sua dedicação aos que sofrem.
Não queria que esta história ficasse no esquecimento.
A minha homenagem.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

O descobrir (desconfiar) de que seria uma guerra diferente


A Fazenda do Onzo,

Na janela do meu quarto na Fazenda do Onzo

situada a cerca de 9km a sul de Nambuangongo, ficava junto do entroncamento que vindo de Luanda se bifurcava também para o Muxuluando. Ali perto corria o Rio Onzo, bastante salientado anteriormente durante a "Conquista de Nambuangongo" pois a ponte tinha sido destruída pelo inimigo e reconstruída rapidamente pela engenharia e, segundo consta foi aqui que foi reconhecido o valor do eng. Jorge Jardim Gonçalves, alferes de engenharia, que segundo o tenente coronel Maçanita, comandante do Batalhão de Caçadores 96, foi aquele que com os militares do seu pelotão, "desbravou caminho, afastando as árvores abatidas colocadas na picada pelo iniumigo, reconstruindo pontes e fabricando jangadas". Diz Maçanita que" se não fosse o alferes Gonçalves, não sei se teria chegado a Nambuamgongo". Jardim Gonçalves ganhou aqui a cruz de guerra de 3ª. classe.

Nesta fazenda esteve aquartelada a companhia de engenharia à qual pertencia o pelotão atrás referido que ao terminar a comissão, abandonou aquela posição por alturas de Janeiro/Fevereiro de 1963. Ficou a fazenda do Onzo sem proteção militar. A solução encontrada foi enviar um pelotão da minha companhia, a 394, que ali estaria durante uma semana, sendo rendido por outro pelotão. Na primeira semana calhou ao alf. Bessa Múrias, e na segunda semana ao meu pelotão. 

Esta possibilidade de ir "passar uns tempos" ao Onzo, era atrativa e porquê? porque era um local à volta de Nambuangongo que não era atacado pelo inimigo e porque enquanto ali estivessemos, não iríamos para operações. Dedicava-se esta fazenda dominantemente ao fabrico de óleo de dendém, ou óleo de palma. Era um imenso palmar onde trabalhavam dezenas de bailundos e dois ou três brancos.Estes bailundos eram contratados na população do centro e do sul de Angola. Referi que ali se fabricava este óleo, mas nunca tive a possibilidade de entrar na zona de fabrico. Vi, sim imensos bidões carregados de cachos com frutos alaranjados.

Mal chegados à parte sul do edificio da fazenda, que ficou à nossa conta, procuramos organizar a defesa. Éramos cerca de 30 com 3 furriéis, dividimos em 3 grupos e um estaria sempre de guarda dividindo-se por 2 postos de vigia, nos extremos do edificio e um, dentro do próprio edifício. Não sem antes ter tentado entrar em contacto, com os elementos da fazenda, que deduzi serem três, para saber como estava organizada a defesa e conciliar as duas forças.Durante a semana que ali passei, nunca consegui falar com o encarregado, pois o único elemento com quem falava remetia-me para o encarregado que estava ausente e ele não tinha indicações para me dar. Mas andava sempre com uma UZI a tiracolo. Também tentei falar com alguns bailundos, especialmente mulheres que ficavam a tratar da alimentação, mas fugiam de conversar comigo.
 
Via também de manhã muito cedo, partirem todos para o seu trabalho e desaparecerem nas matas. Isto causou-me uma certa impressão. Então nós, quando em Nambuangongo, ali a 9km, somos atacados, quer quando saímos, quer até dentro do aquartelamento, e esta "rapaziada", mete-se pela mata e não há tiros? 

Pedi aos meus militares, para terem um certo cuidado com os bailundos, pois naquela altura já tínhamos tido contacto, mais de que uma vez com o inimigo, e as ordens que tínhamos era defender e atirar a matar. Claro, que me questionaram como é que iriam distinguir um bailundo de um dembo? Não era fácil. Orientei-os para se encontrassem algum na mira, demorassem mais tempo a atitude de defesa para se certificarem da atitude do outro.

Durante aquela semana, passou-me pela cabeça, esta ideia que ainda hoje perdura, porque é que aquela fazenda não era atacada? Porque é que três brancos saiem para a mata com a sua UZI a orientarem o trabalho dos negros, e regressam incólumes. E porque é que nós, quase sempre que saíamos de Nambuangongo éramos atacados? Encontrei no chão um livro de faturas velho pertencente à Sociedade Agrícola do Onzo. 

Fiquei a saber quem eram os donos. Guardo, ainda hoje, uma fatura desse livro. Fiquei à espera, até hoje, de saber que papel tinham tido as grandes empresas de Angola nesta guerra. Nunca soube.

Situações que me levaram a estas reflexões, encontrei várias. Relato mais uma:

A camioneta no Caxito. No mês de Março de 1963, regressava a Nambuangongo, depois de ter ido a Luanda levar, com o meu grupo, um conjunto de militares que entravam de licença. Nambuangongo, tinha dentro do arame farpado outras unidades que não só a nossa, como um destacamento de manutenção de viaturas e um destacamento de intendência. Parei no Caxito, a cerca de 70 km a norte de Luanda. Até esta povoação ainda se aventuravam os "brancos" no seu passeio dominical. Ou seja, até ali, não havia, naquele momento, guerra. Mesmo assim, naquele trajeto, encontrávamos situações duvidosas que nos levavam a ter precauções. Não íamos em passeio. Aqui no Caxito, entrei em contacto com o capitão que comandava a unidade ali sediada, para dar informação da minha passagem e a informação para Nambuangongo, para a minha unidade. Como era hábito, e era hora do almoço, apesar de levarmos a nossa ração de combate, ia-se ao rancho pedir uma "sopinha" e o mais que houvesse. E havia. Na mesma altura que falava com o capitão, este apresentou-me um motorista de camioneta que iria seguir para Quicabo, mais à frente 40km, e que estava à espera da minha coluna para seguir sob a nossa proteção. "Sim senhor, é só o momento de uma refeição rápida e partimos já".
Nem um quarto de hora demorámos. Procurou-se o motorista. Que é dele? E como não aparecia. Partimos sem a camioneta.

Logo à saída do Caxito aparecia um entroncamento, para a direita ia-se para Carmona, para a esquerda para o Ambriz e no meio uma pequena entrada para uma picada que nos levava a Nambuangongo. Passava-se Sassa, depois as Mabubas, Ana Passo e passados cerca de 40km chegáva-se a Quicabo. Aqui estava sediado o comando de um Batalhão do qual já não me recordo o número, mas lembro-me de ser bem recebido quando por aqui passava. Desta vez pelo capitão Pires Veloso, mais tarde general comandante da Região Militar do Norte aquando do 25 de Abril. Mas a minha admiração foi a de encontrar a camioneta que me tinha pedido proteção, ali já a descarregar. O motorista disse-me depois que tinha pressa e resolveu fazer o trajeto sozinho.

Mais uma vez me vieram pensamentos de que a primeira vez que vindos de Luanda, ali passámos em Quicabo, estava-se e desenrolar uma guerra, que já aqui referi, com vários batalhões, artilharia, força aérea, vários mortos e feridos ali ao nosso lado a aguardar evecuação. Foi preciso a "guerra parar" para o nosso batalhão passar a caminho de Nambuangongo, e a este motorista não acontece nada? Porque seria? Fiquei a ver, até hoje, se encontrava relatos semelhantes, ou explicações para este tipo de aventuras, mas nunca vi.




quinta-feira, 30 de abril de 2009

O retomar da escrita - O regresso às memórias

Depois de largo tempo sem escrever algo, retomo hoje a escrita, relatando o nosso último almoço convívio em Fátima e referindo aqui algumas leituras que tem sido efectuadas por pessoas que na sua pesquisa internética deparam com termos com que se relacionam.

Fiz aqui referência à existência de um Destacamento de Intendência em Nambuangongo e de um capitão que o comandava. Não referi o nome. Pois o filho do referido capitão, achou interessante o relato aqui colocado e agradeceu lhe ter permitido recordar que mais alguém por lá andou na mesma altura do seu pai. Pois, o nosso Cor. Carlos Soares também já nos deixou em 2005.

No diálogo que tive com o filho, referi da intenção do blog que pretendia que quem o lesse pudesse acrescentar algo que servisse para a história. Transcrevo parte do que escrevi para o filho acerca das recordações que tinha do convívio com o pai:

"A história da Intendência em Nambuangongo, deverá ser relatada. Pelo menos, factos que sirvam para realçar o tipo de actividade que desenvolviam os vários sectores da guerra. O seu pai, recordo-o perfeitamente, porque com alguma assiduidade convivíamos, especialmente à hora do chá. O nosso capitão Moreira, que já referi no blog, tinha por hábito (quando era possível) fazer esquecer as agruras, convidar o seu pai para o chá e torradas e era aí que conversávamos. Recordo-o como uma pessoa delicadíssima e atenciosa para os que andavam pelos exteriores do arame farpado".

Relendo estas palavras, reforço o aspecto da atenção que recebíamos por parte, dos que só saíam do "arame farpado" quando eram obrigados por uma qualquer deslocação. Sentíamos que os mesmos percebiam a diferença e procuravam diminuir o esforço que fazíamos em relação às obrigações que tínhamos de "sair para a mata", através da conversa simpática e amena e procurando que não nos faltasse o conforto possível. Como exemplo, recordo a água quente, para lançar no balde chuveiro, que existia sempre quando estávamos para chegar. Aqui andava, quase sempre a mão do alferes António A.

Quanto ao chá, talvez não fosse com a assiduidade que pode transparecer, mas foi uma imagem que me ficou. Duas ou três vezes que essa cerimónia tivesse sido realizada, ficou gravada. Isto de beber chá e comer torradas, em Nambuangongo, talvez muito gente não acredite, mas com o nosso Capitão Moreira era um requinte que lhe assentava bem.

Anexo algumas fotos que simpaticamente João Miranda Soares me enviou, pertença do seu pai e tiradas em Nambuangongo:


Este era o morro onde estávamos (à direita ainda se vê parte da casa onde dormíamos). Na sacristia da capela e por trás dormiam os militares do meu grupo. A pista de aviação terminava aqui nesta subida.

Este era o morro do Comando. À esquerda era a saída para Zala. Para a direita saía-se para o Quixico.

O Destacamento de Intendendência

As traseiras da Intendência

In memoriam



Almoço comemorativo do regresso (2.3.1965)

Foi em Fátima, no passado domingo dia 26 de Abril.
Depois de assistir-mos à missa, no exterior da Basílica, dirigimo-nos para a Casa das Irmãs Dominicanas onde cerca de 200 pessoas (metade família) conviveram.
Uma vez por outra, vamos a Fátima. Este tipo de cerimónia, neste local, se, por um lado tem pouco convívio, tem, por outro lado, a possibilidade de reflectir e lembrar os que nos deixaram em ambiente propício.
A sala não se prestava para qualquer tipo de discurso. Pediu-se, então, que em cada mesa, se reflectisse sobre os nossos camaradas desaparecidos.

Recordei, um já grande número dos que nos deixaram:
Do meu grupo: o Manuel dos Santos, Salgueirão, Viana, Marreiros, Furriéis Simão Abrantes e Rebocho. Depois o comandante TC Alves Pereira, o segundo, Mj. Pimenta de Castro e depois uma serie de capitães, dos quais só resta o Torres Mendes, que não pôde aparecer. Recordei, então o Dias de Lima, o Sousa Moreira, o Nelson Valente, o Luís Ataíde, o Araújo, os dois que foram substituir estes últimos, o Júdice e o Abreu, e o Beleza dos Santos. O tenente Dionísio. Dos alferes, recordei o Padre Lomba, o Almeida Rego, o Amadeu Cunha Lima, o Manuel Maria Beça Múrias, o Luís Ramos da Silva, o José Joaquim Delfim de Matos, o Horácio Silveira, o Mário Rodrigues e o Roque. Dos primeiros sargentos, recordei o Meira. Estiveram todos presentes na minha lembrança e recordei alguns diálogos e vivências que tive com os mesmos.

Certamente, no próximo convívio, voltaremos a Fazendas de Almeirim, pois é o local que reúne melhores condições, na apreciação da maioria. Uma vez por outra, iremos a Estremoz. É um local simbólico, (aqui formou-se o Batalhão) onde estão gravados os nomes dos nossos mortos em combate.

Esperemos, que esta movimentação ainda se faça por muitos anos. Os alferes estão nos 70/72 anos. Os sargentos, nos 68/69 anos e os outros militares nos 67/68 anos.

Este ano o convívio foi alargado à sociedade civil que aquando da nossa passagem pelo sul (Bailundo, Bela Vista, Chinguar, General Machado, Andulo e Caianda) nos recebeu com carinho e ajudou a passar o tempo que faltava para o nosso regresso. Alguns casaram com jovens de quem se enamoraram na região. A representar os que tão bem nos receberam, estiveram familiares da conhecida casa do Chinguar, Seabra, Moura & Irmão. Sugiro que nos próximos anos, alarguem o convite a outros civis que nos estão ligados.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Partimos para Angola há 46 anos


Fez ontem, 46 anos que partimos no paquete UIGE. Estivemos, hoje, a comemorar, essa data, no restaurante do Idalino (que foi emérito cozinheiro do nossa Batalhão) em V.N. de Gaia.

Presente, dominantemente pessoal do Norte.

Informei os meus amigos de Batalhão de que tinha iniciado a contagem das histórias, por mim vividas, junto do Batalhão, aqui, neste blog, mas que das mesmas não tinha recebido qualquer retroinformação, o que me levou a estar tanto tempo sem acrescentar algo (desde Junho que não escrevo). 

Recebi apoio de um número considerável deles, incentivando-me a continuar, o que me levou, hoje mesmo, a reiniciar esta escrita. 

Prometo que as histórias que acrescentarei, ajudem a valorizar um grupo de jovens que numa determinada altura da sua vida, foram obrigados a embarcar para Angola e que as suas atitudes e acções deverão ser devidamente conhecidas e consideradas. 

Prometeram-me, também, que não deixariam de colocar os seus comentários e anotações sobre o que considerarem que poderá a melhor esclarecer o então vivido.

domingo, 8 de junho de 2008

A central Vinte e Oito de Maio ou Central do Quinguengo?

Nos dois primeiros dias de Nambuangongo, em que andamos com os militares do Batalhão de Caçadores 137 a "visitar" as duas picadas em direcção a Zala e ao Quixico, nesta, foi-nos mostrado o acesso à central do Vinte e Oito de Maio, com a informação: "Ali, nunca alguém conseguiu chegar. Está tudo fortificado. Já apanhámos muita tareia".


Passados estes primeiros dias e no decorrer de conversas com os nossos superiores, ficamos a saber que o grande objectivo era a conquista da Central do Quinquengo, cujo local era o que me tinha sido referido pelo camarada do 137. Daí, e até hoje, para mim, uma e outra são a mesma coisa. Peço aos leitores, que por ali andaram, quer na mata quer nos mapas (pessoal das operações) que deslindem esta percepção.


O MATA ALFERES
Ali, naquele local, estavam os grandes senhores da guerra do outro lado. Era com estes que nos teríamos de encontrar. Quando chegamos a Nambuangongo falaram-nos no mata alferes. Um atirador especial que tinha feito o serviço militar no nosso exército, com o nome de António Fernandes. Tinham acabado de morrer 2 alferes com um tiro único na cabeça e segundo, se dizia, mortos por este atirador. O Ruas, e o Retorta (este filho de um conhecido dirigente do Benfica). Também tinha morrido o Szabo, filho de um treinador do Sporting, e este, era um dos mortos que estavam meio escondidos, num edifício feito morgue, quando passamos em Quicabo, a caminho de Nambuangongo, a 20 de Dezembro de 1962 e assistimos à guerra com aviação e artilharia sobre os morros que circundavam este quartel das nossas tropas. Em Fevereiro, ali ao lado no Mucondo, mais um tiro certeiro do António Fernandes, num alferes de cavalaria, o Ferrão.

Quando embarcamos em Lisboa, falava-se que já tinham morrido 15 alferes em combate. Três eram meus amigos. O Mota da Costa, meu colega de liceu que foi para a Academia Militar e era paraquedista, o Côncio da Fonseca, um dos 42 cadetes do nosso COM de Santarém, e o Francisco Keating, um médico daqui de Coimbra de quem me tinha despedido na estação de Coimbra - B.

Fácil será de perceber, como é que andávamos metidos naquela guerra. Um dos ataques, ainda não tínhamos um mês de Nambuangongo, a um grupo do nosso batalhão quando a caminho do Muxaluando, e que ia receber formação de comandos na região do Úcua, teve vários feridos e um morto com um tiro na testa, o Dores. E quem é que diziam que tinha sido o atirador? O António Fernandes.

Era este o panorama que se nos colocava. Os nossos superiores, como bons militares que eram, pretendiam acabar com a guerra o mais depressa possível. Eles e nós pensávamos que aquela guerra não iria demorar mais de um ano ou dois. Para isso, sabiam que o ponto forte estava ali naquelas matas, com um chefe, que se a memória não me atraiçoa, era o Panzo da Glória e com um grande atirador, o tal António Fernandes.

OS DEMBOS - A PACIFICAÇÃO DOS DEMBOS - O GEN. JOÃO DE ALMEIDA
Naquela altura ainda não tínhamos ouvido falar do MPLA ou FNLA. Só a UPA (União das Populações de Angola) centrada numa base do outro lado da fronteira, no Congo ex-Belga, a base do Kinkuzu, onde certamente tinham recebido treino os militares que do outro lado nos iriam dar luta. Sabíamos que o grande senhor da UPA, era o Holden Roberto.

Sabíamos, também, que estavamos no centro da região dos Dembos. Na zona montanhosa e de densas florestas. Entre os rios Loge, Dande e Zenza (ou Bengo). Conhecíamos a história da Pacificação dos Dembos pelo General João de Almeida o "Herói dos Dembos". Mas eu sabia que os Dembos, eles próprios, nunca se sentiram pacificados.

Um resumo da história, ajuda a perceber com que povo iríamos lutar.
Desde os primórdios da nossa entrada em Angola que os Reis do Congo, convertidos à fé cristã, prestavam vassalagem à corte portuguesa com alguma rebeldia de permeio. Por seu lado, os Dembos eram fieis ao seu rei, o do Congo, mas nunca à coroa portuguesa. No decorrer da nossa presença em Angola, mesmo com o rei do Congo a interceder para serem submissos, estes nunca atenderam a estes pedidos.

Esta atitude, obrigava o exército português a lutar sistematicamente, ao longo dos anos, tentando atrair para a nossa coroa a vassalagem desta população dum local tão perto de Luanda (100 quilómetros).

Datam de 1615 as primeiras campanhas contra os vários chefes dos Dembos que se revoltavam e não permitiam a passagem, fosse de quem fosse. Os nossos comerciantes não podiam entrar naquela zona para vender ou trocar os seus produtos. Até aos indígenas de outras regiões era cobrado o tributo de passagem e, caso contrário, ficavam com as mercadorias, quando não eram também mortos.

Guerras sucessivas, sob o comando de ilustres militares portugueses, e com algumas (poucas) vitórias sobre este gentio, levaram João de Almeida, na altura capitão, por alturas de 1907, acompanhado do tenente Melo Vieira, a fazer a pé, o trajecto até ao Encoje.
Revendo o trajecto então realizado, que, sem dúvida, é de louvar, verifico que foram sempre a contornar a zona a sul de Nambuangongo, a tal que nos tinha calhado para intervir. Não entraram propriamente no que era, para nós, o coração dos Dembos.

Chegados estes dois militares a Luanda e depois de relatarem o que verificaram, voltaram novamente para a região, agora com mais de 1000 homens, peças de artilharia, metralhadoras e outro material. Partiram com pompa e circunstância pois tiveram a presença de Sua Alteza Real o Príncipe D. Luíz. Só que toda a sua intervenção foi na zona de Quibaxe, Zenza do Itombe, Quindangue e Caculo Cahenda, onde foi construído um forte com o nome de João de Almeida.
Portanto, muito a sul da região de Nambuangongo (distante cerca de 100 quilómetros). Depois de várias batalhas, de terem sofrido 10 mortos e 30 feridos, e depois dos sofrimentos resultantes do clima, da guerra, das longas caminhadas, o exército português marcou "um dos mais brilhantes episódios da nossa história colonial".

Sei que na mesma altura, outras colunas procuravam pacificar o lado esquerdo da zona dos Dembos, pelo lado do Ambriz. Existem referências de colunas comandadas pelo Tenente Bessa Monteiro, que ali perdeu a vida em combate e que deu o nome a uma povoação, por onde passaram vários batalhões ( o Batalhão de Cavalaria 350 do Coronel Spínola). Esta povoação fica a norte de uma outra mata célebre, a Mata Sanga, considerada intransponível (nós passámo-la e disso daremos relato numa outra história), onde encontrei, quando por lá passei, perto da Quibala, na entrada sul desta mata, um forte de nome João de Almeida.

Manuel de Resende na NOTA FINAL dos Cadernos Coloniais "Ocupação dos Dembos 1615-1913", que consultei e que pode ser consultada em:
http://memoria-africa.ua.pt/MemoriaDigital/CadernosColoniais/CadernosColoniais-N61/cadernoscoloniais-n61-018.jpg, terminava a sua obra da seguinte forma:

HOUVE MESMO "PACIFICAÇÃO DOS DEMBOS"? E HOJE, OS DEMBOS DO "28 DE MAIO" ESTARÃO PACIFICADOS, EM RELAÇÃO À ADMINISTRAÇÃO DO PAÍS?
"As operações nos Dembos não ficaram pelas de 1913. Anos depois, nova coluna invadiu a região e, de então para cá, se pode considerar completa a sua vassalagem, não sem que tenha corrido um caudal de sangue. Necessário? Não necessário? A História o dirá. Por enquanto é cedo demais para fazê-la. As ossadas dos que tombaram, andam por lá, ainda, à flor da terra, e o tempo não apagou, ainda, os vestígios e os trágicos efeitos da luta."

Foi, sem dúvida, o então capitão João de Almeida, que chega a General, que reconhecidamente realizou um grande feito da nossa história colonial. No entanto, o que nós, quando chegámos aos Dembos sabíamos, era que o gentio da região, depois desta referida pacificação, nunca se sentiram submetidos aos portugueses. Uma das histórias que nos contaram, referia que uma vez por ano os residentes das povoações no interior da mata, mudavam-se de armas e bagagens para uma segunda povoação junto da picada, onde esperava o chefe de posto (a autoridade portuguesa municipal), pagavam o "imposto de palhota" (história para ser mais bem contada) e voltavam para o interior. Este interior, nunca nenhum branco visitou.

Outra história ligada à vontade de entrar no coração da mata referia que, uma das vezes, em que a autoridade portuguesa se aventurou além dos limites permitidos, foi recebida pelo soba sentado em cima de um barril, informando este de que ali, por baixo dele estava pólvora, mas lá dentro havia mais, de modo que aconselhava a não avançar. Da veracidade desta história, não consegui encontrar referências, mas muito provavelmente era verdade.

Aquele interior, a norte de Nambuangongo, à direita de Zala, a norte do Quixico, à esquerda de Quipedro e a sul do Rio Loge, nunca ninguém entrou desde o início da guerra colonial em Março de 1961. Soube, já depois de ter vindo, que a nossa tropa chegou a lá ter entrado, mas só depois de a artilharia e a aviação terem bombardeado a posição. Encontraram a central do "vinte e oito de Maio" santuário escondido, não visível pela aviação, fortificado, com postos de vigia em cimento armado, subterrâneos, etc.. Segundo o relato do fuzileiro Mário Manso em http://fuzileiros.tk/index.php?menu=4&sec1=2 , esta central foi alcançada pelo Destacamento nº 6. Transcreve-se parte do relato do referido fuzileiro.

"Sendo um olhar individual de um ex-combatente que aos 18 anos já tinha levado o primeiro, dos muitos tiros que uma emboscada de guerrilheiros ofereceu como boas vindas, ao destacamento nº 6 de Fuzileiros Especiais, que de forma pouco gentil, resolveu entrar naquele que era um respeitoso santuário, dos guerrilheiros daquela vasta zona dos Dembos, sem ter tempo de se benzer. Eu não era o padre, mas era o primeiro daquela enorme procissão, que de arma na mão, com ou sem razão, estava a cumprir ordens da Nação.
Já naquele tempo havia condomínios fechados. Aquela mata vinte e oito de Maio situava-se no “Concelho de Nambuangongo e Freguesia da casa de zinco sem nome de rua ou código postal” coração da guerrilha onde quem tentasse entrar, levava chumbo pela certa. Das muitas tentativas de assalto, levadas a efeito por outras forças até àquele momento, tinham sido frustradas, a segurança tinha funcionado, e os assaltantes tinham sido sempre postos em debandada, e então, só com a nossa rapaziada o portão foi forçado, e o assalto consumado. As forças invasoras, tiveram dois feridos e um morto. As forças de segurança das instalações, não conseguiram impedir os assaltantes de destruir o que puderam, desde “armazéns” de viveres, habitações, escolas, enfim, toda aquela qualidade de vida que existia naquela mata paradisíaca, em que o sol não entrava quando cria, que as suas gentes protegia, servindo de maternidade para a criança que nascia, e que lhe servia de berço quando dormia. Mas a bem da justiça social, tinha que se alterar tudo que estava mal, e ponto final."

Era este interior que queriam que nós conquistássemos. E julgo que os nossos superiores, também sabiam, que aquele local, ou se quisermos, aquelas gentes, não eram alvo fácil a abater. E digo isto, porque um dos filhos do General João de Almeida, era na altura oficial de cavalaria, de quem certamente os oficiais superiores do nosso Batalhão teriam ouvido mais do que eu ouvi.

A PRIMEIRA TENTATIVA PARA ENTRAR NA MATA
Chegámos a Nambuangongo e duma forma intensa e quase diária, saíamos para estudar a melhor forma de entrar no 28 de Maio. Pequenas emboscadas, por nós montadas, quer do lado de Zala quer do lado de Quixico, tinham por objectivo ver os movimentos e tentar fazer prisioneiros.

Socorro-me do trabalho do Mário Moreira Lima "399 Cavaleiros de Cavalaria - Memórias de um Batalhão" edição do autor, Julho de 2006, que refere em "Os primeiros mortos em combate" p.83, a data de 19 de Janeiro de 1963 como a da primeira morte no nosso Batalhão. Ora, esta morte, dá-se quando o pessoal da Companhia de Cavalaria 395 regressa ao Quixico, depois da primeira tentativa para ir ao "28 de Maio", em conjunto com a minha companhia a 394.

Assim, a nossa tentativa de entrar no "28 de Maio", deverá ter-se dado a 15 de Janeiro de 1963. Tínhamos vinte e poucos dias de Nambuangongo. Havia uma ânsia para destruir, o mais cedo possível, o santuário dos Dembos. Da nossa parte, os vários alferes, que apesar da pouca prática, e que sabíamos que demorava muito tempo a percorrer a pé, de noite, os trilhos da montanha e as linhas de água, algumas de corrente forte, procuramos informar de que era muito cedo para esta intervenção. Também sabíamos que teríamos de chegar antes das 4 horas da manhã. Hora a que se levantava o pessoal para trabalhar nas lavras. Tínhamos um guia que não nos dava garantias de conhecer bem o caminho. Não era da região, era um bailundo, portanto do sul que tinha fugido para o nosso lado. Também sabíamos e disso já dei referência, que os camaradas do batalhão que rendemos e que connosco andaram durante dois dias a conhecer os locais principais, nos disseram, que já tinham tentado lá ir várias vezes e que tinham sofrido sempre ataques e tiveram que voltar para trás. Que os acessos eram todos a subir e que tinham vigias bem colocados a grande distância do quartel. Não tínhamos um mapa do que era o local. Que acessos? Que desníveis? Como estava disposto o quartel? Como se movimentavam? Quais as zonas mais vulneráveis? Nem um modelo em caixa de areia ou, mesmo, desenhado no solo, nos foi mostrado. Pois, nem eles sabiam algo que pudessem desenhar.

Foi com estas permissas que 3 grupos da nossa companhia a 394 e 3 grupos da 395, num total de mais de 150 homems, partiram a 15 de Janeiro. Do nosso lado, saímos em viaturas, ao entardecer, com a indicação de que as mesmas à entrada da picada para o "28 de Maio", continuariam a sua marcha enquanto saltávamos em andamento para que, desta maneira, o inimigo não soubesse do início da nossa marcha a pé.

Depois de saltar das viaturas em andamento e durante algumas horas, caminhámos, os 3 grupos (Aragão, Múrias e eu) comandados pelo nosso Capitão Moreira. Da conversa com o guia, sentíamos que não havia a certeza de estarmos a caminhar na boa direcção. Próximo das 4 da manhã, hora a que deveríamos estar colocados para atacar, paramos numa clareira. Recordo que estava luar. O capitão reuniu os alferes e dialogamos sobre o que iríamos fazer em seguida. Eu iria com o meu grupo, contornar a posição pela esquerda e colocar-me para além da mesma, esperando a possível fuga do inimigo. Os outros dois grupos iriam desencadear o ataque. Os grupos da 395, cortariam a fuga pela direita.

Sentia que as ordens que o capitão estava a dar, iam-se desvanecendo. A voz, pouco a pouco, ia perdendo energia. Ele sentia que o que estava a dizer, não era possível. Parou e pediu-nos a opinião. Só recordo que desse diálogo, ficou a ideia, de que até ali, já sabíamos o caminho. Ainda ninguém tinha dado pela nossa presença. Haveria que lá voltar noutra altura mas, de forma, a chegar mais cedo.

VOLTAMOS PARA NAMBUANGONGO
Começávamos a subida do morro para entrar no nosso quartel, quando deparamos com um pequeno grupo comandado pelo Capitão Nelson Valente, que tinha ordens para assumir o comando dos vários grupos da operação, de voltarmos para trás, e ir procurar, um grupo de combate da 395, o do José Joaquim Delfim de Matos, meu colega do INEF, e que não dava sinal de si. Tinha sido retirada a autoridade do comando ao nosso Capitão Moreira. (Julgo até que, o capitão Valente, até àquela altura nunca tinha saído para aqueles lados). Quando estávamos a chegar, à entrada da picada para o "28 de Maio", da mesma saía o grupo perdido. Tinham apanhado uma queimada e viram-se com dificuldade para de lá sair. Via-se que vinham todos chamuscados e assustados. Tinham passado um mau bocado. Também o rádio não tinha funcionado e por isso não tinham podido avisar e pedir auxílio.

Mas o mais curioso desta história era de que todos os grupos, mesmo os da 395, tinham de voltar a Nambuangongo.

JULGAMENTO EM "CONSELHO DE GUERRA"
Viemos a saber, que o nosso comandante estava desiludido, (para não dizer fulo, porque não assisti aos acontecimentos) e queria levar todos os alferes a "conselho de guerra". As palavras que corriam eram mesmo estas. Ficámos todos atónitos. Não propriamente assustados, mas a pensar que tipo de guerra é esta, em que os superiores sem conhecerem a realidade do terreno, delineiam uma operação de grande envergadura sem conhecerem a realidade, sem nos mostrarem como nos devíamos movimentar e articular. Nós, julgando estar a pensar pelo melhor - ir numa outra altura mais bem preparados, iríamos ser acusados de quê?

Preparávamo-nos para ir para o morro do comando quando o nosso capitão Moreira, nos disse para não entrarmos. Entrou ele e soubemos depois que teria assumido que as decisões eram única e simplesmente da sua responsabilidade. "Os meus alferes não entram". E não entramos.

Mas ficou, logo, desde ali, um certo mal estar a partir, pelo menos, da atitude de retirarem o comando dos grupos ao nosso capitão e ter ficado o capitão Nelson Valente como responsável da procura do grupo perdido.

O REGRESSO DA 395 AO QUIXICO
Desta acção, no regresso, no dia seguinte, dos grupos da 395 ao Quixico, foram atacados a seguir ao Morro da Palmeira em que houve um morto e vários feridos. Esta será a história seguinte, já que acorri com o meu grupo e com o Dr. João Patrício ao local do ataque, onde se desenrolaram depois mais ataques.

O ESQUECIMENTO DE UM RÁDIO NA VIATURA
Ainda sobre esta acção ao "28 de Maio", é referido na obra citada em "os louvores ao nosso Batalhão e ao comandante" p.132, onde o autor diz que nesta acção "um patrulhamento entre Nambuangongo e Quixico, soldados da CCav 394 foram transportados em viaturas até um determinado ponto da picada, para aí se embrenharem a pé pelo interior da mata. Ter-lhes-á sido dito que o tempo dessa incursão era reduzido..." . Acrescenta mais o autor que um dos militares responsável pelas transmissões, ao ter deixado o rádio na viatura, esta falta "foi decisiva para suspender a missão", e que o nosso comandante ao tomar conhecimento deste episódio, ordenou que o Cap. Moreira abrisse um auto de averiguações sobre o comportamento do operador do rádio, "ao que o capitão terá respondido que, naquele caso, a haver um auto de averiguações teria que ser contra si próprio, tendo acabado por não haver qualquer tipo de sanção". 
Julgo que o nosso comandante nunca tomou conhecimento deste facto. Pela mesma razão, nunca o capitão Moreira deverá ter proferido tal frase, até porque perante o mesmo, assumi a responsabilidade da falta do referido rádio, razão porque não houve punições. 

A VERDADE DE CADA UM
Serve este meu testemunho, não para dizer que a verdade está de um ou do outro lado, mas para que uma outra opinião, ou, se quiserem, um outro lado da história, tenha visibilidade e sirva para confronto. 
Os relatos aqui apresentados, resultam de imagens nítidas gravadas na minha memória. Estas são as minhas memórias e se a operação não se realizou, não foi certamente, pela falta de um rádio.
Outras situações certamente aconteceram nesta operação, mas só estas ficaram no meu arquivo. Outros camaradas, espero, poderão relatá-las, aqui neste espaço.