domingo, 11 de maio de 2008

A nossa Nambuangongo



Tentarei dar uma imagem deste local de forma a melhor se perceberem as histórias que tiveram início a partir daqui.

Nambuangongo com 2 morros, um mais elevado onde se encontra a Igreja e onde termina a curta pista de aviação. Uma pista entre 300 e os 400 metros. Gostaria de ouvir a opinião doutros que por lá passaram sobre esta minha leitura do comprimento. Os aviões aterravam a subir e saíam a descer, o que equivalia a dizer que muitos desciam com o máximo de velocidade e desapareciam deixando-se cair para adquirir ainda mais velocidade. Era um conforto, vê-los aparecer passados alguns segundos a subir.

No final da pista, o heliporto construído havia pouco tempo, pelo, na altura, tenente piloto-aviador Rego de Sousa. Ali perto, a padaria. Dos bons sabores que ficaram - o pão quente de madrugada.

À esquerda da Igreja, a sacristia que servia de caserna ao meu grupo de combate. Entre a Igreja e o depósito da água, o cemitério, na altura já com algumas campas. Como estará agora?

Nesse morro estava a minha companhia. Igualmente no mesmo espaço encontravam-se as oficinas de manutenção de viaturas e já na descida uma destacamento da intendência (Manutenção Militar), responsável pela alimentação dos militares desta zona, comandada por um capitão e que tinha ainda um alferes, que mais tarde foi um dos nossos deputados e ministro.

Este, recordo-o aqui como sendo a pessoa que durante a nossa estadia nesta posição, nos ajudava sempre nas partidas e muito especialmente nas chegadas, confortando-nos com as suas palavras e as suas histórias de boa disposição. Muitas vezes velando para que quando chegássemos não faltasse uma refeição quente a acompanhar o descanso emocional. Obrigado António.

O último edifício à direita com telhado era onde dormíamos.



A pista com duas avionetas Auster. Nesta foto é visível a placa do heliporto






(foto de António F. Moreno Cardeira - 1969 com um carro de combate do Capitão Mendes Paulo utilizados neste período)
Nesta foto, retirada da internet, vê-se com mais pormenor o edifício que antes da guerra era o do chefe de posto e que na altura nos albergava.

Num quarto eu, o Jorge Ribeiro Aragão (uma das nossas cruzes de guerra e ferido em combate) e o Manuel Maria Beça Múrias (já falecido e que foi chefe de redacção de "O Jornal"). Noutro quarto, o médico Joaquim Pires dos Reis com quem continuo a conviver em Coimbra, e o Valdemar de Castro Chaves. Havia ainda um gabinete e o quarto do capitão Moreira, comandante da Companhia de
Cavalaria nº. 394.




A janela do nosso quarto.








No outro morro ficava a Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Cavalaria nº. 399. Das outras duas companhias, uma, a 395, estava no Quixico, a cerca de 30km a leste de Nambuangongo e a outra, a 396 em Quimbumbe com acesso distante, já que a ida por Zala/Bela Vista não podia ser realizada pois a ponte entre estas duas localidades não era transitável.

A foto abaixo, mostra a Nambuangongo actual com a visão da picada em baixo à direita em direcção a Zala e o morro à esquerda em cima ( o morro da Palmeira e que também será objecto de uma história) que era necessário passar para se ir ao Quixico.

3 comentários:

Victor disse...

Amigo Júlio,
Aceitando o teu convite para um comentário sobre o comprimento da “pista” de Namboangongo, para além de recordar a sua pequenez, mesmo para as pequenas avionetas que o frequentavam, pouco posso acrescentar.
Porém a foto em que aparecem duas Dornier Club, que voavam sempre em parelha, pilotadas por Civis e pertenciam ao chamado “Esquadrão Salazar”, na humanitária distribuição de correio e alguns frescos, e também para arriscadas evacuações de feridos graves, faz-me recordar o dia aquela mesma pista, no dia 9 de Janeiro de 1964, quando em companhia de mais um Alferes e um soldado, levantamos voo, indo aos comandos o Piloto e Chefe de Esquadra AIRES, da PSP da Vila Alice, em Luanda, descemos para não mais lá voltar a aterrar aquele aparelho.
Dessa vez, ninguém ficou à espera de ver o aparelho a aparecer de novo, nem voava em parelha por ser um extra ao “lusco-fusco”, os seus tripulantes alcançaram tarde da noite, a Base de Santa Eulália, feridos, mas salvos.
Um abraço fraterno.
VSantos

Tigre1 disse...

Agradecido Vitor.
Lembro-me perfeitamente do Aires. Delicadíssimo. Voei uma vez para Luanda com ele. Se não me engano possuía bigode.
Sobre as austers andarem sempre aos pares, no meu tempo, era verdade mas para os militares, já que se uma falhava a outra nunca largava o local da queda. O mesmo não acontecia com os voluntários. Sempre os vi andar sozinhos. Digo isto, porque da única vez que andei nas cinzentas dos voluntários, recordo-me de à saída de Nambuangongo, o piloto ter dado uma série de voltas para ganhar altura e só depois é que rumou a Luanda. Porque aquilo me estava a fazer impressão, questionei-o e respondeu-me dizendo que àquela altura, se acontecesse o motor falhar, já lhe dava para planar até Luanda. Fica para a história.
Um Abraço
Júlio Paiva

Eugénio Lisboa disse...

Já em 95,numa deslocação com o meu pelotão,transportava o "nosso" afoito e sempre "bem disposto" Coronel Totobola, sentado no Jipão da frente na caixa da bateria,junto ao guarda-lama da roda "no lugar do 'meu' alferes". Na curva apertada antes de Nambuangongo a viatura entrou em derrapagem em cima da alta camada de pó.O "nosso" Coronel voou e deslizou uns metros de barriga sobre a fofa poeira, ergue-se,sacode-se e ufano grita:é assim que se "salta" em combate!!!.À chegada paramos junto à "extraordinária" pista...(ali o "barriga de ginguba"aterrava a subir em 200m e tinha, a descer que levantar em 300m,pela sua falta)... Estava um Dornier que,da torneirinha da asa, abasteceu o graduado Zippo que "só usa gasolina de avião!". Era altura de ir limpar,refrescar e desinfectar a garganta... tal como fazia após a barba ... com essa "água da Escócia".
Tudo correu bem a não ser para o condutor que ia morrendo de medo...porque não conhecia o famoso Totobola.